
Pior que não ser correspondido por um grande amor é perder a capacidade de amar.
O sol estava quente e eu caminhava sem perceber. Suava. A roupa branca não marcava. Carregava muitas sacolas pesadas. As mãos, acostumadas, seguravam forte. Os pés latejavam. Entrei no primeiro restaurante que vi. Estava cansada e faminta. Passara aquela manhã fazendo compras no centro da cidade, onde podia pechinchar e conseguir algumas bagatelas. Mas jurei que seria a última vez. Ah seria! Da próxima iria mesmo ao shopping center, a maravilha do mundo moderno, com suas facilidades e confortos. Sentei-me na pequena mesa perto do ar-condicionado. Acomodei minhas sacolas. Coloquei a bolsa do lado. Esfreguei a testa. Estava melada. Tudo grudava em mim. Precisava ir ao banheiro. Mas o garçom aproximou-se.
A senhora quer fazer o pedido agora ou está esperando alguém? Senhora é a sua avó, me deu vontade de responder. Sei, sei que tem todo aquele lance de que é respeitoso, mas pra mim é justamente o contrário: uma p... falta de respeito. Quando me chamam de senhora, me sinto infinitamente mais velha do que já sou. Feia, sem charme, nada atraente. Juro, acaba com o meu dia. Preferia levar uma cantada grosseira... E o rapaz, coitado, ainda pergunta se espero alguém. Agora só falta me oferecer uma salada leve, ótima pra quem precisa de uma dieta. Aí sim, completa o ciclo do acabou-de-estragar-o-meu-dia. Mas respondo educadamente, sem sorrir hein, que não espero ninguém. Não espero mesmo. Não espero nada. Graças a Deus. Esperar é ter esperança. Estar em constante expectativa. E disso me livrei há muito tempo. Esperar é uma roupa velha que não mais me serve. Ingrediente fora das minhas receitas. Item excluído do meu cardápio. Alias cadê o cardápio. Na mão do garçom, que ainda me olha, na expectativa, coitado. Deve estar me achando doida. A velha doida... Sentada sozinha em um restaurante familiar de mesas grandes, carregando todas aquelas sacolas sem ajuda e ainda tendo surtos de mudez....
Bom, deixe-me ver. Quero uma cerveja bem gelada. E a salada do dia. Sei, sei o que disse sobre a salada. É que estou mesmo precisando maneirar. Só não gostaria que o rapaz achasse a mesma coisa. Vou ao banheiro. No caminho desinteressado, vejo um vulto do passado. Será possível? Sinto a pele formigar. Todos os meus pêlos arrepiam, avisando. É ele, meu Deus. Antônio. Está sentado naquela mesa do canto. Minhas pernas se aquietam. As pupilas dilatam e mudam de cor. Ficam claras. Paro atrás do pilar para vê-lo melhor. Ele não me viu. Observo. Ele está velho. Mas não perde o charme. Está fumando. Eu já parei. Parece estar sozinho. Mas está feliz. Dá pra ver. Deixa pra lá. Vou ao banheiro. Entro e vou direto ao espelho. Olho bem pra mim. Pele, rosto, olhos, boca. Lavo o rosto, retoco o batom, prendo os cabelos em um rabo. Sorrio. Ainda estou bonita sim. Será que ele ainda seria capaz de me desejar? Mesmo depois de tanto tempo morta? Éramos tão apaixonados, envolvidos, eloqüentes. Tão despreocupados. Irresponsáveis e felizes. Foi a última pessoa que amei. Depois dele, nunca. Nem me lembro quando foi a última vez que senti aquele frio na barriga. Ah, lembro sim, foi quando o Antônio foi embora...
Nossa, que cor linda essa do seu batom. Aquela voz me traz de volta ao banheiro. Olho para o lado e a vejo. Linda, deve ter uns 20 anos. Ou menos. Usa uma roupa um pouco ousada. Mas qualquer atrevimento teria perdão.
É cor de pêssego, respondo.
Posso passar? Claro. Ela lambuza a boca com o meu batom, sem nenhum constrangimento. No maior sentido da liberdade.
Obrigada, é que deixei a bolsa na mesa. Tchau. Tchau. Já não sou tão bonita agora. Será que devo mesmo passar na mesa do Antônio? E se... Espere um pouco, e se o quê? Não, não. Vamos parar com isso agora. Vou sair desse banheiro direto para a minha casa. Que Antônio o quê? Idéia maluca essa. Saí dali decidida. Passei rápido por aquela porta e, sem olhar para os lados, segui para a mesa onde havia deixado as minhas sacolas pesadas. A cerveja já estava lá. Gelada. Dei um grande gole. Congelou as minhas artérias. Ainda mais. Deixei dinheiro sobre a mesa. Agarrei as sacolas com força, a bolsa e saí daquele lugar perigoso. Mas deu tempo, meu Deus, deu tempo de ver, pelas janelas do restaurante, Antônio sentado com a moça perfeita do banheiro. Eles riam. Tropecei. As sacolas rasgaram. As minhas milhares de coisas espalharam-se com facilidade. O salto quebrou. E meus joelhos sangravam. Me esforcei para não chorar. Mas não contive o grito. De raiva e dor. Uma mescla entrega. Um rapaz parou pra me ajudar.
Você está bem? Nããããooooo. Claro que não. Queria uma cova bem funda agora. Uma porta pra outra dimensão. Mas lógico, respondi apenas sim, obrigada! Ele segurou o meu braço. Levantei. Não ousei olhar para o lado. Será que Antônio viu? Só falta isso. O rapaz começou a recolher as minhas coisas. Eu, inerte. Atordoada ainda. Receosa. Na expectativa. Impossível fugir dela... Ouço então aquela voz.
Helena, é você, Helena? Fecho os olhos. Será que assim ele desaparece? Fecho os olhos e ele não está mais ali. Não... Quando abro vejo os olhos de Antônio. Negros. Escuros e profundos como sempre. A minha maldição, aqueles olhos. Mas me viro rápido. E nada respondo. Apenas pego a bolsa, tiro os sapados e começo a caminhar. O sol quente já se fora. Deixara apenas a lembrança de um mormaço, que inflama meu corpo. Sinto-me nua. E só, como jamais permitira. Atravesso a rua, corro para meu carro. Entro rápido. Parto mais rápido ainda. Chego em minha casa exausta e salva. Sem minhas sacolas... Entrego-me ao chuveiro e a água fria me acolhe. Acalenta minha pele desprovida. Os joelhos ressentem-se. Havia me esquecido e quase não suporto. Vão cicatrizar. Sempre cicatrizam. Depois, um sono desconfiado me envolve. Não sonho, não deliro, não permito. Escolhi a solidão. A ela me entrego todas as noites. Sem medo. Sem sobressaltos, nem afogamentos. A ausência, muitas vezes, é a melhor presença.