
Foi por pouco. Escondi-me atrás do muro baixo da casa branca de janelas azuis. Parece que ela se foi. Será? Elas sempre voltam. E eu ainda sinto as agulhas do medo. Melhor ficar mais um pouco aqui. Cautela. Sempre a cautela. Bom, vou aproveitar e respirar o ar desse jardim de rosas vermelhas. Estou aqui encolhida. Vou esticar as pernas e descansar meu corpo por um momento. Corri muito até encontrar esse pequeno esconderijo. Ainda bem que é um jardim vermelho. Da última vez me escondi em um terreno sujo e abandonado. Tão abandonado que até os ratos haviam fugido. E eu tive que sobreviver apenas de alivio. Nada mais. Mas agora estava em um jardim com flores vermelhas, grama verde molhada, borboletas coloridas e pássaros mágicos. Tinha até pássaros, meu Deus! E eles voavam alto. Por um minuto, mirei meu olhar determinado no vôo de um passarinho azul, que voou tão alto que seu azul se fundiu ao azul infinito do céu. Foi a maior experiência de liberdade que já presenciei. Que presente! Fez-me recordar que sou alada. Então fiquei feliz, até tentar fazer as minhas asas se moverem. Depois de alguns longos minutos de esforço: nada. Elas atrofiaram com a falta de uso. O medo atrofiou minhas asas grandes e bonitas. Nunca as usei. Fiquei triste ao lembrar que tinha asas e não podia voar. Agora então, que havia bruxas no meu encalço, seriam tão úteis. Nenhuma bruxa seria páreo pra mim. Mas as asas nem abriam, quanto mais voar... Quem sabe um dia, com uma boa fisioterapia, elas voltem ao seu ofício: o de me levar para as nuvens. Para lugares jamais visitados e que eu sei, têm lugar de honra guardado pra mim. Tem gente boa me esperando. Um dia, quem sabe... Mas agora não me resta outra saída se não enxugar as lágrimas e esperar um pouco encolhida sob aquele muro baixo. Eu estou presa em um lugar lindo e aconchegante, onde poderia até ser feliz, mas não podia me mover, a não ser rastejando junto aos insetos. Isso mesmo, tornei-me um ser rastejante daquele paraíso. Foi nesse momento que ele apareceu. Era alto e bonito. E estava em pé, segurando algumas rosas vermelhas recém colhidas. Uma delas havia machucado sua mão branca. Um espinho pontiagudo. Ele parecia não sentir dor. Não percebia o sangue. Olhou pra mim curioso. Deve ter pensado o que essa mulher está fazendo no meu jardim? E ainda encolhida no canto, junto ao muro baixo... Então se aproximou devagar. Não perguntou nada. Apenas estendeu a mão que não estava sangrando. Seus olhos eram de pai. Mas recusei, receosa, com um leve balançar da cabeça. Ela agachou-se. Tocou-me o rosto com cuidado e disse, num tom azul de falar, que não precisava mais ter medo. “Vou curar suas asas”. Meu Deus, o que era aquilo? Aquele homem vestido de anjo ali, pronto pra me salvar de minhas bruxas infernais. Senti um profundo desejo de sorrir e abraçá-lo. Entregar-me a ele, por completo. Ser o tudo. Ver a vida. Sentir, enfim, sentir a plenitude. Mas não foi isso o que fiz. Tenho até vergonha de contar. Mas mais uma vez me deixei seduzir pelo medo. Fui agarrada por ele. Apoderou-se de mim, assim que percebeu o que acontecia ali. E eu já estava tão acostumada com seus argumentos sórdidos, que ele nem precisou se esforçar. E, tomada daquele sentimento atenuante e infeliz, encolhi-me e apertei os olhos. Lágrimas escorreram. Então, de olhos fechados levantei-me. Apalpando o muro, pulei para a rua deserta e corri sem rumo. Pronta pra encontrar mais uma bruxa. Mas aquele anjo não desistiu de mim. Assim que olhei para o céu. Percebi suas asas grandes sobre minha cabeça. Senti-me contente por ele não ter desistido de mim. E foi naquele minuto quente que comecei a experimentar um pequeno formigamento em uma de minhas asas. Sorri, então. Mesmo avistando de longe uma das minhas bruxas. Resolvi parar de correr. Não me escondi. Tomada de uma coragem nova, fui até a bruxa devagar, com calma. Ela me olhou assustada, quem diria... Então a convidei pra um café, ali no bar da esquina mesmo. E, acredita que ela aceitou? Tivemos uma conversa tão boa e demos tantas risadas juntas, que de repente achei que ela tinha cara de fada. E prometeu me apresentar para a sua turma. Assim que nos despedimos com um abraço verdadeiro, depois de trocarmos e-mail e celular (ela tem até um blog!!!), abri as asas, com naturalidade. E voei, pela primeira vez.