O que me resta se não ficar aqui, sentada, com as pernas encolhidas e o vestido vermelho que mais gosto molhado pelas lágrimas? Nada. A não ser um resquício de mim. Que é nada. Nada vestida de vermelho. Sobrevivo dessa agonia. Sim, porque é o que me resta. O que mais posso fazer? Responda! Não quero mais ser sustentável, porque os pretextos se perderam. Sou ideologia cansada. Um complicado sistema de idéias. Idéias secas. Tornei-me paliativa? Sim. Não há mais cor de vontade em mim. A não ser o vestido vermelho que me rende. O tudo agora é nada. A vida partiu-se. A morte ainda não veio. Estou por um fio. Um fio que nada tece. Um fio de nada. Frágil, arrebenta. Isso é o que me tornei. E, olha, não adianta me olhar com esses olhos incrédulos. Não me importo com seu olhar. Nem vejo você, sabia? Apenas sinto o seu cheiro. E já fico nauseada. Isso mesmo. Tenho náusea de gente. Quero apodrecer aqui. Sozinha. Eu, com o pouco que resta. Não quero ajuda. Piedade, pode até sentir. Nem indignada fico. Sou indiferente aos sentidos alheios. Emoções não me tocam. Pode rir, também, se quiser. Não me importo. E depois de rir bastante, me deixe sozinha, com o meu vestido vermelho. Aqui, para o não morrer.
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
Restos
O que me resta se não ficar aqui, sentada, com as pernas encolhidas e o vestido vermelho que mais gosto molhado pelas lágrimas? Nada. A não ser um resquício de mim. Que é nada. Nada vestida de vermelho. Sobrevivo dessa agonia. Sim, porque é o que me resta. O que mais posso fazer? Responda! Não quero mais ser sustentável, porque os pretextos se perderam. Sou ideologia cansada. Um complicado sistema de idéias. Idéias secas. Tornei-me paliativa? Sim. Não há mais cor de vontade em mim. A não ser o vestido vermelho que me rende. O tudo agora é nada. A vida partiu-se. A morte ainda não veio. Estou por um fio. Um fio que nada tece. Um fio de nada. Frágil, arrebenta. Isso é o que me tornei. E, olha, não adianta me olhar com esses olhos incrédulos. Não me importo com seu olhar. Nem vejo você, sabia? Apenas sinto o seu cheiro. E já fico nauseada. Isso mesmo. Tenho náusea de gente. Quero apodrecer aqui. Sozinha. Eu, com o pouco que resta. Não quero ajuda. Piedade, pode até sentir. Nem indignada fico. Sou indiferente aos sentidos alheios. Emoções não me tocam. Pode rir, também, se quiser. Não me importo. E depois de rir bastante, me deixe sozinha, com o meu vestido vermelho. Aqui, para o não morrer.
sábado, 9 de agosto de 2008
Tempos de fada
Antes mesmo de entender, já se apaixonara. Pequena e despreocupada, sentava no degrau da cozinha e abria o jornal. Os olhinhos brilhavam de curiosidade. Acompanhavam os contornos intrigantes das letras estampadas, imaginando o que aqueles desenhos significavam. Tentava decifrar. Concebia histórias. Ainda não sabia, mas já sonhava com fadas. Um dia aprendeu e descobriu seu tesouro. Uma aventura incomparável. Agora poderia criar seus próprios mistérios. Foi tão fácil, que desconfiaram dela. Então foi pra escola e lá divertia-se com suas novas bonecas: os livros da biblioteca. Encantou-se com as cores das milhões de possibilidades encaixadas em estantes e mais estantes. Havia muito a ser encontrado. Sentiu o arrepio de contentamento de criança quando ganha presente. Mas não era seu aniversário.
sexta-feira, 25 de julho de 2008
Sem volta
Olha, foi assim. Juro. Cheguei lá depois da hora marcada e encontrei o cara sentado no seu lugar. Sabia que estava atrasada, mas nunca imaginei que você iria embora. Desculpe. Mas fiquei puta da vida. Custava esperar um pouco? O trânsito estava um inferno, demorei pra encontrar um lugar pra estacionar a merda do carro. Me molhei com a chuva fina. Cheguei aqui irritada e não te encontrei. Pô. Só atrasei vinte minutos. Pensa que não sofri quando percebi que não ia conseguir chegar na hora marcada? Detesto atrasar, você sabe. Odeio descumprir acordos. Sou certinha com essas coisas. Tão certinha que até irrita, você sempre diz. E mesmo assim não me esperou. Sacana, você. A gente já não anda bem. Amor já virou relacionamento. E agora estamos beirando uma relação. Ô palavrinha seca essa: relação. Relação sexual, então, eu abomino. Parece experiência de laboratório. Mas antes isso do que nada, né? Porque ultimamente, nem isso, meu querido, nem isso. Sabe, tô começando a gostar de você não ter me esperado. Ia ser mais uma conversa chata sobre a nossa, argh, relação. Por que a gente tá prolongando essa coisa? Bem, eu já estava dando meia volta pra ir até a sua casa te dizer, calmamente, que estava tudo terminado, que melhor acabar agora, com alguma dignidade. Poderíamos ser amigos, sim, por que não? Foi aí, bem aí nesse momentinho de lucidez e determinação, que o cara se levantou. Que cara? O que eu disse que estava sentado no seu lugar. Bem no seu lugar. Ele se levantou e me encarou. Olhou pra mim como você, um dia, também olhou. Bem antes de virar relação. Eu não entendi nada. Mas não consegui desviar o olhar. Fiquei olhando pros olhos do cara, que olhava pros meus. Sabe assim, sem fim? Eu não sei dizer como aconteceu. Nem quando, nem por quanto tempo. Não me sinto culpada, porque juro, não era eu. Não sou disso. Sempre fui tímida. Nunca tive muitos namorados. Nunca sequer beijei em público assim, à luz do dia, no meio de um restaurante. Mas o cara me puxou. Envolveu-me em braços decididos. Um cheiro de barba anestesiou tudo, de repente. Me fez carne. E eu me rendi, assim, sem medo. Me doei, assim, fácil, fácil. A boca dele (boca mesmo, nada de lábios: boca) rasgou-se na minha. E a minha, ah, abandonou-se na dele. Ludibriada. Boca de boca na boca. Aí. Aí você chegou. Mais atrasado que eu, agora eu sei. E não está acreditando em nada disso que estou te contando. Não te culpo. Eu também não acreditaria. Mas olha, foi assim sim, eu juro. Não posso fazer mais nada. Já aconteceu. Minha pele já tá comprometida. Minha carne já tá marcada. Assim, sem volta.
domingo, 8 de junho de 2008
No tom do outono
É preciso dizer que não vou falar de flores. Nem hoje e por muito tempo. Estou vivendo em outra estação. Ainda não é chegado o meu tempo frutífero de primavera. Creio estar no outono. Preparando-me para um rigoroso inverno. Mas sem o medo de antes. Agora conheço os meus pés frios. E arrumei uma galocha. Estou recolhendo algumas folhas secas e vou guardá-las como recordação desta temporada. Deixo algumas aqui para os que me visitarem. Mas flores... Desculpe, meu caro. Não é mesmo chegado o meu tempo.Minha temporada agora é de seca. Uma secura branca e pacífica. Sim, há fertilidade em mim. Há adubo. Mas não há hora para o cultivo. Meus minutos estão contados, como dinheiro em tempo de recessão. São preciosos os meus segundos. Quando o inverno chegar, estarei mais forte e disponível. Não precisarei mais deste relógio impossível. E então estarei radiante para o verão. Esquentarei minhas letras. Plantarei minhas sementes coloridas. Condimentarei em novas línguas. E me tornarei, novamente, primavera de mim. Pra ti.
sábado, 31 de maio de 2008
purple
Cheguei tarde.Você já havia partido.
Atrasei-me pois pensei ter entendido.
As palavras tinham significado de dicionário.
Eu não sentia. Apenas entendia.
E isso, acredite, fez a diferença.
Provocou esse maldito desencontro.
E acabou nessa meia vida mal vivida.
Agora só tenho você em sonho.
Nunca mais e pra sempre.
Coroado e glorificado.
Eternizado.
Ingênuo devaneio meu.
Deslumbre da minha quietude.
Por isso é eterno, não é?
Porque quem fica em sonho, tudo pode.
Responda, nem que seja na minha imaginação.
Mas responda, por favor.
Você volta?
Não me vire as costas.
Não em sonho.
Me fascina com seu verde no delírio da noite mal dormida.
Seja a ilusão da minha vida.
A minha quimera apaixonada.
Seja a miragem nos dias de areia nos olhos.
Quando as vozes alheias me arderem os ouvidos.
Seja minha utopia.
Minha dor e minha delícia.
Mas seja.
Esteja pra mim. Deseja comigo. Lateja em mim.
Me realiza.
Me finda com sua felicidade fantasiosa.
E me veja com os meus olhos de fantasia.
Uma só vez.
De verdade ou não.
Vida ou não.
Eu e você, ou não.
Você.
Sempre você.
Sua essência em meu coma.
domingo, 25 de maio de 2008
Chega de viagens no tempo
Tenho uma máquina do tempo. Aqui mesmo, do meu lado. Mas me deixa muito nervosa: ela só funciona quando quer. Não tenho controle nenhum sobre suas idas e vindas.Outra coisa: difícil viajar pro futuro. Ela ocasionalmente me leva alguns segundos à frente. Mas pisco os olhos e volto pra cá, pro presente.
Pro passado ela volta com freqüência. Devolve-me sentimentos escondidos.
Alegra-me e me assombra essa máquina...
Sabe de uma coisa? Vou me livrar dela. Jogá-la em um buraco bem fundo.
Desfazer-me de lembranças? Jamais, são meus tesouros. Mas quero apenas guardá-las. Não revivê-las.
E, sobre o futuro... Quando ele tornar-se meu presente, aí sim eu vou vivê-lo.
E depois, quando então tornar-se meu passado... Aí eu te conto.
Sem medo.
quinta-feira, 15 de maio de 2008
Para Ana e André
Tem amor que acontece.Simples assim: amor de verdade.
Chega complacente.
Despretensioso, num breve olhar de sol nascente.
E torna-se quente de repente.
Sorrateiro, instala-se.
Traça seu enredo, ali, no primeiro beijo.
Sim, veio pra ficar.
Envolve, destoa e entoa.
E fica!
Tece a própria teia e não tem hora pra ser.
Apenas é. Simples assim: amor de verdade.
Amor consumado no amor.
Feito de amor.
Regado no amor.
Amor que gera amor.
Dribla o tempo.
E surpreende, dia-a-dia.
Feliz em ser o que é.
Em amar só de amor.
Em renovar-se no amor.
Pra celebrar esse amor.
Simples assim: amor de verdade.
* Para Ana e André, despretensiosamente.
Estou longe de ser romântica. E ainda concordo com Fernando Pessoa: todas as cartas de amor são ridículas... Mas falar de Ana e André sem ousar no amor, não é falar de Ana e André... É assim que os vejo, que os sinto. Assim os admiro.
Esta foi, portanto, uma singela homenagem a uma história de amor de verdade, que será oficializada amanhã. Uma homenagem a duas pessoas que se amam na simplicidade do cotidiano e que sei, se apaixonam todos os dias. Sempre.
À minha eterna e querida amiga Ana Cláudia, menina romântica que se tornou uma mulher apaixonada pela vida. E que junto ao André, construiu uma história linda, abençoada por anjos: Helena e Isabela!
Assinar:
Postagens (Atom)
